Sobre o buriti

O buriti (Mauritia flexuosa L.F.), conhecido como “árvore da vida”, é uma palmeira abundante e de grande relevância ecológica, socioeconômica e cultural no Brasil. Sua presença está intimamente ligada aos ecossistemas de várzea e savana úmida, funcionando como regulador hídrico e fornecedor de alimento, fibras e matérias-primas essenciais às populações tradicionais (Silva, 2019; Aguiar, 2014). O buriti pode ser encontrado nos biomas da Amazônia e do Cerado.

A palmeira pode atingir de 10 a 40 metros de altura em condições naturais e começa a produzir frutos quando atinge seis metros acima do solo. A frutificação ocorre, em geral, entre dezembro e junho, garantindo oferta quase contínua de frutos ao longo do ano em muitas regiões da Amazônia e do Cerrado (Silva, 2019). Cada palmeira pode produzir centenas de frutos, constituindo fonte essencial de alimentos e matérias-primas para comunidades indígenas, ribeirinhas e quilombolas. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), o período produtivo ocorre entre os meses de setembro e fevereiro, com pico da safra entre os meses de outubro e janeiro.

Desde a coleta até o beneficiamento, o uso do buriti, tanto para a segurança alimentar das comunidades amazônicas quanto para a comercialização, está inserido em um contexto social, ambiental e regulatório que molda os desafios e oportunidades desse valioso produto da sociobiodiversidade amazônica. Praticamente todas as partes do buriti são aproveitadas. Da polpa dos frutos, extraem-se óleos ricos em carotenoides e vitaminas, empregados na alimentação, na produção de doces, vinhos e sorvetes, além de terem ampla aplicação nas indústrias de cosméticos e farmacêuticas. As folhas são utilizadas na cobertura de habitações, artesanato e confecção de cordas, enquanto os pecíolos e talos servem como matéria-prima para ripas, móveis e utensílios domésticos (Ferreira; Cymerys; Silva, 2005).

O sistema produtivo do buriti integra diferentes formas de organização social. Em muitas comunidades indígenas como a Guariba, na Terra Indígena Araçá, praticam formas de etnoconservação, em que o buriti é parte do alimento, do artesanato, de rituais e da organização social, simbolizando um recurso vital para a autonomia cultural (Oliveira, 2015). Ainda assim, o sistema produtivo do buriti enfrenta desafios como mercado não consolidado, alta perecibilidade da polpa e custos elevados de produção. Porém, apresenta oportunidades devido à diversidade de subprodutos, alta qualidade do óleo e potencial de geração de renda e conservação ambiental. Garantir a sustentabilidade do sistema produtivo implica em fortalecer as comunidades que há séculos mantêm viva essa palmeira, assegurando que os buritizais permaneçam como patrimônio natural e cultural da sociobiodiversidade brasileira.

As Unidades Produtivas Modais (UPMs) utilizadas na modelagem espacialmente explícita foram registradas pela CONAB em Igarapé-Miri (PA) representando o extrativismo tradicional do buriti nas várzeas estuarinas amazônicas. A produtividade média é de 0,55 t/ha, com custo de produção de R$3.580,44/t e custo de transporte de R$182,60/t. O transporte é misto (terrestre e fluvial).

Os registros da Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura (PEVS/IBGE) mostram que a produção de buriti apresenta forte variação interanual. Os anos de alta safra variam conforme a região. No Amazonas, os picos de produção ocorreram em 2015, 2018 e 2019, especialmente nos municípios de Manaus (5 t em 2015), Tefé (10 t em 2018) e Parintins (14 t em 2019). No Pará, destacam-se os municípios de Belém (268 t em 2021) e Castanhal (4 t em 2019), evidenciando maior estabilidade e capacidade de comercialização. No Maranhão, a produção atingiu valores expressivos em 2014, com 148 t em São Luís, antes de declinar para 94 t em 2023. Por outro lado, os anos de baixa safra concentram-se em 2013, 2016, 2019 e 2023, quando várias regiões registraram ausência ou queda acentuada da coleta. A modelagem espacial das estimativas de renda incorpora essas diferenças, refletindo a complexidade socioeconômica e ambiental do buriti na Amazônia (Carvalho Ribeiro et al., 2018; Strand et al., 2018).

AGUIAR, Clarissa Maria de. Parcerias para a sustentabilidade do Cerrado: seus desafios e oportunidades. 2014. Dissertação (Mestrado em Ciências – Recursos Florestais, Conservação de Ecossistemas Florestais) – Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, Universidade de São Paulo, Piracicaba, 2014.

BARBOSA, W. M. A cadeia produtiva do buriti (Mauritia sp.). Palmas: Embrapa Cerrados, 2015.

CARVALHO RIBEIRO, Sónia et al. Can multifunctional livelihoods including recreational ecosystem services (RES) and non timber forest products (NTFP) maintain biodiverse forests in the Brazilian Amazon?. Ecosystem Services, [s. l.], v. 31, p. 517–526, 2018.

FERREIRA, L. V.; CYMERYS, M.; SILVA, C. J. Manejo sustentável e potencial econômico da extração do buriti nos Lençóis Maranhenses, Brasil. Revista de Biologia Tropical, v. 53, n. 1-2, p. 151-161, 2005.

MARTINS, A. M.; LOPES, M. A. Inserção de agricultores familiares em cadeias de valor da sociobiodiversidade: o caso do buriti. Revista de Economia e Sociologia Rural, v. 56, n. 4, p. 589-606, 2018.

MORAIS, Rômulo Alves; MELO, Khaiston Kessley de Sousa; OLIVEIRA, Thâmilla Thalline Batista de; TELES, Jamayle Silva; PELUZIO, Joenes Mucci; MARTINS, Glêndara Aparecida de Souza. Caracterização química, física e tecnológica da farinha obtida a partir da casca de buriti (Mauritia flexuosa L.f.). Brazilian Journal of Development, Curitiba, v. 5, n. 11, p. 23307-23322, nov. 2019. DOI: https://doi.org/10.34117/bjdv5n11-050.

OLIVEIRA, Renan Batista de. Etnoconservação e valorização do buriti (Mauritia flexuosa) na comunidade Guariba, Terra Indígena Araçá, Roraima. 2015. Dissertação (Mestrado em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia) – Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2015.

SANTOS, L. F.; ROCHA, A. C. Análise do potencial econômico e socioambiental do artesanato do buriti em comunidades tradicionais nos Lençóis Maranhenses. Revista Brasileira de Desenvolvimento Regional, v. 5, n. 2, p. 79-96, 2017.

SILVA, Renata Vivian Rodrigues da. Relatório analítico sobre o cenário/panorama da cadeia de valor da oleaginosa buriti no Estado do Acre. Rio Branco: Secretaria de Estado de Meio Ambiente do Acre (SEMA), 2019. Produto 3.0 – PDSA II, Contrato 086/2018.

SILVA, T. A.; SANTOS, R. A.; SOUZA, M. C. Caracterização da polpa de buriti (Mauritia flexuosa Mart.) – um potente alimento funcional. Revista Alimentos e Nutrição, v. 29, n. 3, p. 457-468, 2018.

STRAND, Jon et al. Spatially explicit valuation of the Brazilian Amazon Forest’s Ecosystem Services. Nature Sustainability, [s. l.], v. 1, n. 11, p. 657–664, 2018.