Sobre o açaí

No Bioma Amazônico existem duas espécies de açaí: Euterpe oleracea e Euterpe precatoriaE. oleracea ocorre na região Norte como no Amapá, Pará e Tocantins e Nordeste como no Maranhão. Essa espécie desenvolve-se em solos úmidos e ricos em matéria orgânica, característicos de áreas de várzea (Calzavara, 1970; Lorenzi, 2004). Seu período produtivo ocorre entre junho e dezembro, com pico de safra entre setembro e outubro. A espécie E. precatória, por sua vez, comum em terra firme, apresenta frutificação entre março e junho, com safra concentrada entre abril e maio. Essa espécie ocorre apenas na região Norte como nos estados do Amazonas, Acre, Rondônia e Pará (Flora do Brasil, 2018; Vianna, 2020).

O extrativismo do açaí constitui a principal base econômica e alimentar de milhares de famílias ribeirinhas e agricultores familiares, representando também um símbolo cultural e identitário da Amazônia (Camargo & Costa, 2012; Camargo et al., 2013). Esse sistema produtivo envolve coletores, atravessadores e batedores artesanais, que abastecem tanto o consumo local quanto os mercados urbanos regionais (Carvalho Ribeiro et al., 2018; Strand et al., 2018).

O processo de coleta é realizado, geralmente, no início da manhã em virtude das temperaturas mais amenas. Os frutos são colhidos e levados para as margens dos rios em cestos de fibras vegetais, também conhecidos como rasas ou paneiros. O açaí é um fruto altamente perecível. O tempo entre a extração e o processamento é um fator determinante para a qualidade do produto e, caso esse período ultrapasse 48h, os frutos tendem a ser transportados cobertos por gelo. Na Amazônia o transporte é predominantemente fluvial. Para levar os produtos das comunidades até os compradores, o produtor utiliza embarcações próprias ou alugadas. Durante o trajeto, o produtor é o responsável por despender com ajudante, frete, compra de combustível e/ou aluguel de transporte, o que influencia diretamente na renda do extrativista.

O preço de mercado do açaí é fortemente influenciado pela oferta e demanda sazonal, bem como por condições climáticas anuais (Pantoja et al., 2022; Camargo & Costa, 2012). A comercialização do açaí segue diferentes circuitos locais, regionais e internacionais. No nível primário, os extrativistas vendem o fruto fresco em paneiros de 14 kg por preços que variam entre R$ 15,00 a 20,00 no interior, ou em rasas nas feiras urbanas, como em Abaetetuba (PA), onde podem custar entre R$ 17,50 e 31,00, a depender da época do ano (Pantoja et al., 2022). Quando vendidos por peso, os atravessadores pagam entre 3 e 7 R$/kg (Camargo & Costa, 2012; Camargo et al., 2013).

A etapa de processamento, realizada tanto por batedores artesanais quanto por pequenas agroindústrias, inclui a despolpa, pasteurização e embalagem da polpa congelada, que pode alcançar preços entre R$ 5,00 e 7,50 o litro e entre 10 e 25 R$/kg em mercados regionais e nacionais (Camargo & Costa, 2012; Pantoja et al., 2022; SEBRAE, 2016). Nos mercados externos, distribuidores e exportadores comercializam a polpa congelada ou produtos derivados, como sorvetes e sucos, a valores que variam entre 30 a 50 R$/kg, dependendo da certificação, qualidade e demanda (MAPEAM, 2019).

Nesse contexto, muitas famílias extrativistas, organizadas em cooperativas ou associações, buscam fortalecer a negociação e acessar certificações que assegurem qualidade e sustentabilidade (Oliveira & Lima, 2006; Shanley et al., 2012). No entanto, muitos extrativistas atuam sem segurança social, sem equipamentos de proteção e em condições que os expõem à riscos de saúde e de segurança. Apenas uma parcela dos agroextrativistas está vinculada a cooperativas, o que limita o acesso a melhores condições de comercialização, apoio técnico e direitos trabalhistas (Brito et al., 2020; Guimarães et al., 2021; Santos et al., 2019). Assim, a valorização dos sistemas produtivos do açaí depende de políticas públicas que reconheçam o papel dos extrativistas, fortaleçam cooperativas locais e assegurem condições dignas de trabalho para aqueles que mantêm viva a tradição do açaí nas várzeas amazônicas.

As Unidades Produtivas Modais (UPMs) são sistemas produtivos de açaí utilizados na modelagem espacialmente explícita que refletem a diversidade de contextos ecológicos, logísticos e sociais da Amazônia. Em 2024, sete sistemas foram analisados, distribuídos entre o Pará e o Amazonas, apresentando grande variação nos custos, produtividade e condições de transporte. Nos municípios paraenses de Curralinho, Limoeiro do Ajuru e Ponta de Pedras, a produtividade varia entre 47 e 62 toneladas por safra, com custos de produção entre R$958,34 e R$1.634,38 por tonelada. Já no interior do Amazonas, os sistemas de Boca do Acre e Codajás apresentam produtividades de 15 a 18 t/safra, com custos de produção em torno de R$1.950/t e transporte fluvial, refletindo a importância de áreas ribeirinhas. Em contraste, o sistema de Beruri tem produtividade de 2,2 t/safra e o custo de produção de R$12.900/t, enquanto Abaetetuba combina produtividade de 3,4 t/safra com custos de produção e transporte mais equilibrados. Em todos os casos, o transporte é predominantemente fluvial, variando de pequenas embarcações comunitárias até balsas e barcos de médio porte, complementado por trechos terrestres até os centros de beneficiamento. A presença de cooperativas é constante em todas as localidades analisadas.

A análise dos registros da Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura (PEVS/IBGE) evidencia uma forte variação interanual na produção do açaí entre as regiões intermediárias da Amazônia. Os anos de baixa safra concentraram-se principalmente em 2013, 2014, 2016 e 2023, enquanto os anos de alta produção variaram entre 2013 e 2023, dependendo da região. Os estados do Pará e do Maranhão apresentaram tendência crescente de produção: Belém, Castanhal, Marabá e Santa Inês-Bacabal atingiram seus maiores volumes em 2023, enquanto Altamira e Santarém tiveram picos entre 2020 e 2022. Já no Amazonas, a produção oscilou fortemente: municípios como Manaus, Lábrea e Parintins registraram quedas significativas após 2013, caracterizando tendência decrescente, ao passo que Tefé e Cruzeiro do Sul mostraram crescimento. Essas diferenças regionais foram consideradas na atualização e correção dos custos para o respectivo ano de referência das safras de alta e baixa produtividade, servindo de base para a modelagem espacialmente explícita das estimativas de renda apresentadas nos mapas a seguir.

BRITO, F. C. et al. Açaí: cadeia produtiva e sustentabilidade na Amazônia brasileira. Belém: Embrapa Amazônia Oriental, 2020.

CALZAVARA, B. B. G. A cultura do açaizeiro. Belém: Instituto de Pesquisas e Experimentação Agropecuária do Norte (IPEAN), 1970.

CAMARGO, R. A.; COSTA, S. M. Cadeia produtiva do açaí no Pará: características, desafios e oportunidades. Belém: UFPA, 2012.

CAMARGO, R. A. et al. O extrativismo do açaí e sua importância socioeconômica nas várzeas amazônicas. Revista de Estudos Amazônicos, Belém, v. 5, n. 2, p. 45–62, 2013.

CARVALHO RIBEIRO, Sónia et al. Can multifunctional livelihoods including recreational ecosystem services (RES) and non timber forest products (NTFP) maintain biodiverse forests in the Brazilian Amazon?. Ecosystem Services, [s. l.], v. 31, p. 517–526, 2018.

GUIMARÃES JÚNIOR, S. A. Sociobiodiversidade e mercado: o extrativismo do açaí e as políticas públicas na Amazônia. Manaus: EDUA, 2021.

LORENZI, H. Árvores brasileiras: manual de identificação e cultivo de plantas arbóreas nativas do Brasil. 2. ed. Nova Odessa: Instituto Plantarum, 2004.

MAPEAM. Diagnóstico da cadeia produtiva do açaí no estado do Amazonas. Manaus: Movimento Articulado de Pesquisas para o Meio Ambiente da Amazônia, 2019.

OLIVEIRA, M. A.; LIMA, R. S. Certificação socioambiental e cooperativismo no extrativismo do açaí: limites e perspectivas. Belém: UFRA, 2006.

PANTOJA, M. P. et al. Dinâmica de preços e sazonalidade do açaí no Pará. Revista Brasileira de Agroecologia, v. 17, n. 1, p. 89–104, 2022.

SANTOS, A. L. dos; PEREIRA, R. M.; SILVA, J. F. da. Organização social e comercialização dos produtos extrativistas na Amazônia: o caso das cooperativas de açaí. Revista Brasileira de Agroecologia, v. 14, n. 2, p. 112–124, 2019.

SEBRAE. Estudo de mercado: açaí. Brasília: Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, 2016.

SHANLEY, P.; MEDINA, G.; GOMES, P. R. Frutíferas e plantas úteis na vida amazônica. Belém: CIFOR, 2012.

STRAND, Jon et al. Spatially explicit valuation of the Brazilian Amazon Forest’s Ecosystem Services. Nature Sustainability, [s. l.], v. 1, n. 11, p. 657–664, 2018.