Sobre a andiroba
A andiroba (Carapa guianensis Aubl.) é uma árvore da família Meliaceae amplamente distribuída na Amazônia, especialmente nos estados do Pará, Amazonas, Amapá e Roraima (Brito et al., 2020). A Carapa guianensis ocorre preferencialmente em solos argilosos, ricos em matéria orgânica, úmidos, de pH ácido (4,0 a 5,0), sob condições climáticas que variam de 20,5 a 27 °C de temperatura média anual e precipitação de 1.300 a 3.500 mm (Ferreira, 2022), características de área de várzeas.
A andiroba fornece dois produtos de grande importância: a madeira e o óleo extraído de suas sementes (Mendonça & Ferraz, 2007; Brito et al., 2020). Na Floresta Nacional do Tapajós (PA) o óleo de andiroba, junto com a copaíba, está entre os produtos extrativistas que mais contribuem para a renda das famílias locais, mesmo diante da baixa formalização e da forte dependência de atravessadores (Souza et al., 2017). Historicamente, o óleo de andiroba foi amplamente utilizado: serviu como combustível para iluminação em Belém no século XIX e durante a Primeira Guerra Mundial, quando substituiu o querosene em várias cidades amazônicas (Franco, 1998; Menezes, 2005; Homma, 2014). Hoje, mantém relevância tanto no uso tradicional, como cicatrizante, repelente, anti-inflamatório e vermífugo, quanto na indústria cosmética e farmacêutica (Cavalcante et al., 2016; Santos & Pellicciotti, 2016).
O processo de extração do óleo inclui a seleção, secagem e prensagem das sementes, podendo ser realizado de forma artesanal ou mecanizada. No primeiro nível, os extrativistas podem vender o óleo a intermediários ou agroindústrias locais, com preços médios entre 10,00 e 40,00 R$/L (Brito et al., 2020; Ferreira, 2022). Já nos mercados regionais e nacionais, o litro do óleo pode ser vendido de R$80,00 a R$120,00 (Assis, 2008; Ferreira, 2022). Finalmente, distribuidores e exportadores destinam a produção a consumidores nacionais e internacionais, chegando a valores entre R$103,00 e R$155,00 o litro, dependendo da certificação e da demanda do mercado (Ferreira, 2022).
Muitas famílias organizadas em cooperativas ou associações buscam fortalecer a negociação e acessar certificações que garantam a qualidade do produto (Pacheco, 2009; Carvalho et al., 2013). No entanto, a maioria dos coletores atua sem segurança social, sem equipamentos de proteção e em condições que expõem sua saúde e segurança (Silva et al., 2019). Assim, a valorização da andiroba significa não apenas reconhecer sua importância medicinal e industrial, mas também fortalecer os sistemas de manejo comunitário, garantir preços justos e promover políticas públicas que assegurem a sustentabilidade do sistema produtivo (Carvalho Ribeiro et al., 2018; Strand et al., 2018).
As Unidades Produtivas Modais (UPMs) da andiroba utilizados na modelagem espacialmente explícita representam diferentes realidades amazônicas. Entre os sistemas analisados, destacam-se os de Carauari (AM) e Belterra (PA), ambos com produtividade média de 9,6 t/safra. Em Carauari, o custo de produção é de R$2.381,58/t, com transporte predominantemente fluvial e custos médios de R$14,06/t. Já em Belterra, onde há dois sistemas distintos registrados, os custos de produção variam de R$3.556,89/t a R$4.035,00/t, com transporte terrestre e fluvial e custos logísticos médios de R$168,54/t. Segundo entrevistas realizadas junto à cooperativas, os sistemas de Uruá (PA) e Canutama (AM) apresentam produtividade entre 1 e 1,2 t/safra e custos mais altos de transporte, chegando a R$ 2.613,90/t em Canutama e R$ 4.170,00/t em Carauari.
Os registros da Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura (PEVS/IBGE) mostram que a produção de andiroba tem se mantido em baixos volumes e forte oscilação anual. As regiões de Lábrea (AM) e Tefé (AM) se destacam entre as poucas com registros expressivos: Lábrea atingiu 81,5 t em 2017, e Tefé apresentou 25,8 toneladas em 2018, evidenciando o potencial produtivo dessas áreas de várzea. Já no Pará, especialmente em Belém, a produção cresceu de 15,8 t em 2018 para 176,7 t em 2022, consolidando o estado como o principal polo extrativista ativo no sistema produtivo da andiroba. A modelagem espacial das estimativas de renda incorpora essas diferenças, refletindo a complexidade socioeconômica e ambiental dos babaçuais da Amazônia.
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