Sobre o babaçu

O babaçu (Attalea speciosa Mart. ex Spreng) é uma palmeira característica de extensas áreas de transição entre Amazônia, Cerrado e Caatinga. Seu desenvolvimento ocorre em ambientes de topografia variada, desde áreas planas até terrenos levemente ondulados, não apresentando restrição marcante quanto à altitude. A palmeira pode atingir de 10 a 20 metros de altura, com folhas longas e eretas. Cada palmeira adulta produz de 2 a 5 cachos por ano, contendo entre 200 e 600 frutos. O fruto, conhecido como “coco babaçu”, é formado por epicarpo, mesocarpo, endocarpo e amêndoas, praticamente todas essas partes possuem aproveitamento econômico: da casca obtém-se carvão vegetal e biomassa; do mesocarpo, farinha utilizada na alimentação; e das amêndoas, o óleo de babaçu, produto mais valorizado (Albiero et al., 2007; Silva, 2011).

Do ponto de vista climático, o babaçu prospera em regiões de temperatura média anual entre 20 °C e 28 °C e em áreas de elevada pluviosidade, variando de 1.200 a 3.000 mm anuais. De acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), o período produtivo do babaçu ocorre entre junho e fevereiro, com pico da safra entre setembro e novembro.

O babaçu é uma palmeira oleaginosa de enorme importância socioeconômica e cultural no norte do Brasil, considerado como recurso vital para milhares de famílias agroextrativistas. Mais que um simples produto florestal, o babaçu constitui um símbolo de identidade, resistência e sustentabilidade, ligado sobretudo à história de luta das mulheres quebradeiras de coco babaçu, que transformaram a atividade extrativa em referência de organização social e política (Silva, 2011; Moura, 2023).

No plano social, o babaçu representa a principal fonte de renda e subsistência para milhares de famílias agroextrativistas. A figura das quebradeiras de coco é central: mulheres que, ao longo de gerações, desenvolveram saberes, técnicas e práticas coletivas para a coleta, quebra e beneficiamento do coco, garantindo tanto o autoconsumo quanto a comercialização de produtos como óleo artesanal, farinha, carvão e artesanato. Sua organização política, expressa em movimentos como o Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), transformou-se em referência de luta por direitos territoriais, acesso às florestas e reconhecimento do trabalho extrativista (Moura, 2023; Silva, 2011).

O sistema produtivo, no entanto, é marcado por contradições e desigualdades. Grande parte da produção ainda depende do extrativismo manual, com baixa mecanização, e sofre com a atuação de intermediários que compram o coco ou as amêndoas a preços reduzidos, transferindo os maiores lucros para atravessadores e indústrias processadoras. Além disso, os babaçuais têm sido constantemente pressionados pela expansão da agropecuária e pelo desmatamento, reduzindo o acesso das comunidades tradicionais às áreas de coleta (Albiero et al., 2007; Bezerra, 1995). Apesar disso, iniciativas locais, como reservas extrativistas, cooperativas e projetos de agregação de valor ao óleo e subprodutos, têm buscado fortalecer a autonomia econômica das quebradeiras de coco e ampliar os mercados justos para o babaçu (Silva, 2011; Vidal, 2023). Assim, valorizar o babaçu depende tanto de políticas públicas que assegurem direitos territoriais e melhores condições de trabalho para as quebradeiras de coco, quanto de investimentos em inovação tecnológica e mercados solidários que possam transformar os babaçuais em fonte duradoura de vida, dignidade e resistência.

As quatro Unidades Produtivas Modais (UPMs) do babaçu utilizadas na modelagem espacialmente explícita advêm dos painéis da CONAB, realizados em Imperatriz, Pedreiras, Vargem Grande e Zé Doca (MA), observa-se grande disparidade entre custos e produtividade. A produtividade média varia de 0,77 t/safra em Vargem Grande a 3,45 t/safra em Zé Doca, com custo de produção crescente em relação à produtividade. Zé Doca, por exemplo, apresenta o maior custo de produção (R$11.213,61/t) e também o maior custo de transporte (R$5.673,61/t). Nos sistemas de Imperatriz e Pedreiras, ambos também localizados no Maranhão, a produtividade é semelhante (1,6 a 1,68 t/safra), mas os custos de produção variam entre R$7.163,57/t e R$7.642,61/t, respectivamente. Já os custos de transporte apresentam amplitude maior, de R$ 280,00/t em Imperatriz a R$ 1.309,52/t em Pedreiras. Em todos os sistemas, o transporte é predominantemente terrestre.

Os dados da Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura (PEVS/IBGE) mostram que a extração de babaçu apresenta forte variação temporal e territorial, com registros concentrados no Maranhão e em menor escala no Pará e no Tocantins. No Maranhão, os municípios de Santa Inês–Bacabal e São Luís apresentaram os maiores volumes de produção da série histórica. Em Santa Inês–Bacabal, a produção atingiu 52.599 t em 2013 e caiu para 12.309 t em 2023. Em São Luís, o volume caiu de 17.126 t para 5.557 t entre 2013 e 2022, mantendo a tendência de declínio. Nos municípios de Imperatriz e Araguaína, observou-se comportamento distinto: Imperatriz apresentou o pico recente de produção em 2023 (286 t), indicando certa retomada da atividade, enquanto Araguaína teve seu maior valor em 2018 (413 t) e o menor em 2015 (235 t). A modelagem espacial das estimativas de renda incorpora essas diferenças, refletindo a complexidade socioeconômica e ambiental dos babaçuais da Amazônia (Carvalho Ribeiro et al., 2018; Strand et al., 2018).

ALBIERO, D.; MACIEL, A. J. S.; LOPES, A. C.; MELLO, C. A.; GAMERO, C. A. Proposta de uma máquina para colheita mecanizada de babaçu (Orbignya phalerata Mart.) para a agricultura familiar. Engenharia Agrícola, v. 27, n. 3, p. 337-346, 2007. DOI: https://doi.org/10.1590/S0100-69162007000300010.

BEZERRA, O. B. Localização de postos de coleta para apoio ao escoamento de produtos extrativistas – um estudo de caso aplicado ao babaçu. 1995. Dissertação (Mestrado em Engenharia de Produção) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 1995.

CARVALHO RIBEIRO, Sónia et al. Can multifunctional livelihoods including recreational ecosystem services (RES) and non timber forest products (NTFP) maintain biodiverse forests in the Brazilian Amazon?. Ecosystem Services, [s. l.], v. 31, p. 517–526, 2018.

MOURA, M. S. (org.). Transformações agrárias nos babaçuais do Maranhão. São Luís: EDUFMA, 2023.

SILVA, A. J. Extrativismo do coco babaçu (Orbignya phalerata Mart.) no município de Miguel Alves-PI: caminhos para o desenvolvimento local sustentável. 2011. Dissertação (Mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente) – Universidade Federal do Piauí, Teresina, 2011.

STRAND, Jon et al. Spatially explicit valuation of the Brazilian Amazon Forest’s Ecosystem Services. Nature Sustainability, [s. l.], v. 1, n. 11, p. 657–664, 2018.

VIDAL, M. F. Extrativismo: recursos florestais naturais. Caderno Setorial ETENE/BNB, Fortaleza, ano 8, n. 299, p. 1-12, out. 2023. Disponível em: https://www.bnb.gov.br/publicacoes/caderno-setorial