Sobre a borracha extrativa

Hevea brasiliensis, conhecida pelos nomes comuns de seringueira e árvore-da-borracha, é uma árvore da família das Euphorbiaceae, originária da bacia amazônica.  Árvore de porte mediano a muito alto, podendo atingir 50 m de altura. A árvore requer um clima tropical ou subtropical com um mínimo de cerca de 1.200 mm de chuvas. A seringueira leva entre sete e dez anos para se tornar produtiva. Os extrativistas fazem incisões nos vasos de látex, apenas o suficiente para extrair o látex sem prejudicar o crescimento da árvore, e o látex é coletado em pequenos baldes. Esse processo é conhecido como sangria de seringueira.

A borracha natural tem sua origem no extrativismo amazônico, onde povos indígenas já utilizavam o látex muito antes da colonização europeia, fabricando artefatos conhecidos como encauchados, bolas, recipientes e vestimentas impermeáveis (Amaral & Samonek, 2006). A partir do século XIX, o extrativismo da borracha ganhou projeção mundial com o chamado Ciclo da Borracha (1879 a 1912), que transformou cidades como Belém e Manaus em centros econômicos de grande dinamismo. Apesar da crise gerada pela concorrência asiática e da expansão da borracha sintética, o extrativismo permaneceu como modo de vida fundamental para milhares de famílias ribeirinhas e seringueiras na Amazônia ocidental (Silva, 2022).

Atualmente, a borracha continua sendo extraída em sistemas tradicionais, especialmente nas Reservas Extrativistas do Acre e em comunidades do Amazonas. Cada família mantém a produção em áreas entre 20 e 40 hectares, contendo de 300 a 450 seringueiras nativas produtivas. O trabalho é totalmente manual, os seringueiros realizam incisões no tronco para colher o látex, que é coagulado com fumaça ou ácido e prensado artesanalmente em mantas conhecidas como “pelas” (Sá et al., 2004). Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), a safra ocorre ao longo de todo o ano, sendo o mês de julho o período de menor produção.

O sistema produtivo da borracha extrativa apresenta diferentes elos. O primeiro, é a retirada do látex da seringueira. O seringueiro percorre longas distâncias dentro da floresta para realizar o processo de extração e coleta do látex nas estradas de seringa. Os extrativistas transformam o látex líquido em coagulado CVP (Coágulo de Látex Prensado e Vulcanizado). Refere-se à borracha natural após a coagulação do látex da seringueira e seu processamento inicial em forma de placas ou coágulos. Outro elo é composto pelas associações/cooperativas que recebem a produção dos seringueiros. As cooperativas são responsáveis pela comercialização da produção extrativista. O próximo elo é composto pela usina e fábrica de beneficiamento de borracha. Por fim, o elo dos comerciantes e consumidores têm como principais compradores a indústria para produção de pneus e o Ministério da Saúde com a compra dos preservativos, destinados aos programas sociais de saúde.

Os seringueiros vendem o CVP a intermediários a preços que variam entre R$2,00 e R$4,00/kg, dependendo da região e do apoio governamental à produção (Sá et al., 2004; Silva, 2018). Esta etapa de transformação do látex líquido em látex coagulado agrega valor ao produto e permite seu acesso a mercados regionais e nacionais, nos quais o preço médio pago pelas cooperativas pode alcançar entre R$ 5,00 e R$ 8,00/kg, especialmente quando há incentivos públicos ou certificação socioambiental (Sá et al., 2004; Homma, 2014). Finalmente, distribuidores e indústrias processadoras comercializam a borracha a consumidores nacionais e internacionais por valores que podem variar entre R$10,00 e R$ 15,00/kg, conforme a qualidade, o tipo de beneficiamento e a demanda do mercado (Silva, 2018). Nesse sentido, muitas famílias organizadas em cooperativas ou associações buscam fortalecer a negociação e acessar certificações que garantam a qualidade do produto e a sustentabilidade da produção. Os preços estão sujeitos à oferta e demanda sazonal, bem como a condições climáticas anuais, que influenciam diretamente a produção e o rendimento das seringueiras (Homma, 2014; Sá et al., 2004).

As Unidades Produtivas Modais (UPMs) da borracha extrativa utilizadas na modelagem espacialmente explícita advêm tanto dos painéis da CONAB quanto da literatura e entrevistas com cooperativas; os mais representativos estão localizados no Acre (Tarauacá, Xapuri e Sena Madureira), no Amazonas (Lábrea, Manicoré e Carauari) e no Pará (Altamira e Belterra). No Acre, a produtividade varia de 0,6 a 1,4 t/safra, com custos de produção que oscilam entre R$12.346/t e R$21.300/t, e transporte fluvial e terrestre, com custo chegando a R$1.750/t em Xapuri e R$1.383/t em Sena Madureira. No Amazonas, a produtividade média é ainda menor, de 0,65 a 1 t/safra, com custos de produção entre R$ 9.967/t e R$ 13.894/t. Em Lábrea, o custo logístico foi de R$ 64/t. Já no sistema ASPROC – Carauari e Juruá, o transporte fluvial chega a R$ 5.755/t. No Pará, a situação é similar: Altamira e Belterra apresentam produtividades inferiores a 1 t/safra e custos de produção elevados (R$ 12.995 – 20.156/t).

Os dados da Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura (PEVS/IBGE) mostram que a extração de borracha natural apresentou tendências regionais contrastantes entre 2013 e 2023. Nos estados do Acre e de Rondônia, observa-se uma tendência crescente de produção. Em Rio Branco, a produção aumentou de 45 para 665 t entre 2015 e 2023, enquanto Porto Velho e Ji-Paraná (RO) também registraram crescimento, atingindo 93 e 124 toneladas, respectivamente, em 2023. Em contrapartida, os sistemas do Amazonas apresentaram comportamento decrescente. Municípios como Manaus, Tefé, Lábrea e Parintins tiveram seus maiores valores de produção em 2013, com quedas significativas até 2023, em Lábrea, por exemplo, a produção caiu de 726 para 209 t de 2013 a 2023. No Pará, o cenário é misto: Belém e Altamira apresentaram pequena recuperação recente, com tendência estável após 2020. A modelagem espacial das estimativas de renda incorpora essas diferenças, refletindo a complexidade socioeconômica e ambiental da borracha extrativa na Amazônia (Carvalho Ribeiro et al., 2018; Strand et al., 2018).

CARVALHO RIBEIRO, Sónia et al. Can multifunctional livelihoods including recreational ecosystem services (RES) and non timber forest products (NTFP) maintain biodiverse forests in the Brazilian Amazon?. Ecosystem Services, [s. l.], v. 31, p. 517–526, 2018.

SÁ, C. P.; OLIVEIRA, E. L. NASCIMENTO, G. C. Custo e rentabilidade do sistema extrativo para produção de borracha nas Reservas Extrativistas no Acre. Rio Branco: Embrapa Acre, 2004.

SILVA, W. C. da. Produção de borracha natural em comunidades rurais do município de Itacoatiara, estado do Amazonas. Monografia (Engenharia Florestal) – Universidade do Estado do Amazonas, Itacoatiara, 2018.

STRAND, Jon et al. Spatially explicit valuation of the Brazilian Amazon Forest’s Ecosystem Services. Nature Sustainability, [s. l.], v. 1, n. 11, p. 657–664, 2018.

HOMMA, A. K. O. Extrativismo vegetal na Amazônia: história, ecologia, economia e domesticação. Brasília: Embrapa, 2014.