Sobre o cacau extrativo
O cacaueiro (Theobroma cacao) é a árvore pertencente à família Malvaceae, originário das florestas tropicais pluviais da Bacia do Rio Amazonas, que dá origem ao fruto chamado cacau, uma das espécies de maior relevância socioeconômica e ecológica da Amazônia. A espécie é adaptada ao clima tropical úmido com temperaturas superiores a 21 °C e precipitação pluviométrica anual superior a 1.300 mm. A colheita ocorre ao longo de todo o ano, com pico da safra entre dezembro e maio, coincidindo com o período de menor cheia dos rios amazônicos.
O cacau é utilizado tanto para o consumo local, na forma de bebidas e doces artesanais, quanto para a comercialização das amêndoas secas, vendidas em feiras regionais ou a pequenos intermediários. O manejo é tradicional e de baixo impacto: a poda seletiva e o sombreamento natural mantêm a integridade da floresta e garantem a regeneração das espécies associadas, refletindo a importância do cacau como espécie central no equilíbrio ecológico, na geração de renda familiar e na conservação da biodiversidade (Ribeiro et al., 2004; Zigaib et al., 2017).
Entre os produtos de terra firme de origem tropical, desde a coleta até sua comercialização no mercado nacional e internacional, o cacau pode ser considerado como a commodity mais representativa de uma agricultura de subsistência (Amin, 2002), envolvendo segurança alimentar, saberes locais, esforços coletivos e relações com o meio ambiente amazônico. O cacau está inserido em um contexto social, ambiental e regulatório que molda os desafios e as oportunidades desse valioso produto da sociobiodiversidade amazônica. O cacau extrativista difere do cultivo intensivo por manter uma relação de dependência ecológica com o ambiente flúvio-marinho: o ciclo hídrico, a fertilização natural e a sombra das espécies arbóreas regulam a produtividade, dispensando o uso de insumos externos (Carvalho Ribeiro et al., 2018; Strand et al., 2018).
Os sistemas produtivos do cacau utilizados na modelagem espacialmente explícita foram registrados pela CONAB e revelam uma forte heterogeneidade produtiva e econômica entre os sistemas analisados. O sistema de Coari apresenta a maior produtividade média (3 t/safra) e o menor custo de produção (R$3.131,86/t), com transporte misto (terrestre e fluvial) e custo logístico de R$381,19/t. Em contraste, o sistema de Boca do Acre mostra produtividade intermediária (2,52 t/safra), mas com custo de produção elevado (R$11.913,56/t). O custo de transporte (R$32,54/t) é relativamente baixo. Já o sistema de Manicoré apresenta as piores condições produtivas, com apenas 0,37 t/safra e o custo de produção mais alto (R$ 23.296,95/t), além de transporte fluvial e terrestre com custo de R$ 270,27/t, o que limita fortemente a rentabilidade da atividade.
Os dados da Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura (PEVS/IBGE) apontam que a produção extrativista de cacau é irregular e altamente concentrada em poucos municípios da Amazônia. Os anos de alta safra variam regionalmente, mas concentram-se entre 2017 e 2021. No Amazonas, os picos foram registrados em Manaus (11,3 t em 2017) e Lábrea (15,6 t em 2020). No Pará, que abriga importantes áreas de manejo e cultivo, Belém atingiu 1,3 t em 2021, confirmando o predomínio da produção manejada sobre o extrativismo puro. Os anos de baixa safra correspondem, em geral, a 2016 e 2018, com ausência de registro de coleta em quase todos os municípios amazônicos. Essa flutuação reflete tanto a irregularidade da frutificação em áreas nativas quanto a falta de monitoramento sistemático da produção extrativista em regiões de difícil acesso. De modo geral, a produção de cacau extrativo na Amazônia mostra tendência de retomada após 2020. Contudo, os custos de produção ainda restringem a competitividade do produto frente ao cacau cultivado. Essas diferenças regionais e produtivas foram incorporadas à modelagem espacial de produtividade e renda, permitindo estimar de forma mais realista o potencial econômico do cacau extrativo amazônico.
AMIN, M. M. Cacau: a commodity tropical e o desenvolvimento econômico. Ilhéus: CEPLAC, 2002.
RIBEIRO, R. N. da S.; SANTANA, A. C. de; TOURINHO, M. M. Análise exploratória da socioeconomia de sistemas agroflorestais em várzea flúvio-marinha, Cametá-Pará, Brasil. Revista de Economia e Sociologia Rural (RER), Rio de Janeiro, v. 42, n. 1, p. 133–152, 2004.
ZUGAIB, A. C. C.; LOBÃO, D. E.; DE PAULA, F. C. F.; CUNHA, J. M. Valoração ambiental do sistema cacau cabruca para efeito de crédito rural em Barro Preto, Bahia. Ilhéus: CEPLAC/CEPEC, Boletim Técnico n. 208, 2017.
CARVALHO RIBEIRO, Sónia et al. Can multifunctional livelihoods including recreational ecosystem services (RES) and non timber forest products (NTFP) maintain biodiverse forests in the Brazilian Amazon?. Ecosystem Services, [s. l.], v. 31, p. 517–526, 2018.
STRAND, Jon et al. Spatially explicit valuation of the Brazilian Amazon Forest’s Ecosystem Services. Nature Sustainability, [s. l.], v. 1, n. 11, p. 657–664, 2018.