Sobre a castanha-do-Brasil

Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), a frutificação da Castanha-do-Brasil (Bertholletia excelsa) ocorre de dezembro a abril, com pico entre janeiro e abril. Os castanhais desenvolvem-se em solos profundos, bem drenados e ricos em nutrientes, com cobertura arbórea densa que protege árvores jovens e favorece a regeneração natural. As castanheiras podem atingir de 30 a 50 metros de altura, com ciclos de produção que variam de acordo com a idade e as condições ambientais (Mori & Prance, 1990; Garibaldi et al., 2011).

A castanha-do-Brasil é muito mais do que um produto da floresta – é um símbolo de resistência, tradição e sustentabilidade de comunidades rurais, indígenas, quilombolas e ribeirinhas. O sistema produtivo dos castanhais nativos envolve saberes locais, esforços coletivos e relações com o meio ambiente amazônico (Pacheco, 2009). Cada etapa – desde a produção e coleta até o beneficiamento – contribui tanto para a segurança alimentar das comunidades quanto para a geração de renda, estando inserida em um contexto social, ambiental e regulatório que molda os desafios e oportunidades desse valioso produto da sociobiodiversidade amazônica (Carvalho et al., 2013).

A castanha-do-Brasil é comercializada em diferentes etapas, desde a venda do fruto fresco pelos castanheiros até sua exportação para o mercado internacional. Os produtores costumam vender a castanha in natura a intermediários por R$ 10 a R$ 20/kg (Souza et al., 2016). Após o processamento, que inclui seleção, secagem e embalagem, o produto ganha valor e passa a ser negociado nos mercados regionais e nacionais por R$ 25 a R$ 35/kg (Homma, 2014; Carvalho et al., 2013). Quando destinada à exportação ou ao consumo especializado, a castanha pode alcançar de R$ 40 a R$ 60/kg, dependendo da qualidade, certificação e demanda de mercado (Souza et al., 2016; Pacheco, 2009). Muitas famílias organizadas em cooperativas ou associações buscam melhorar a negociação e obter certificações que valorizem o produto (Pacheco, 2009; Carvalho et al., 2013). Os preços sofrem variações conforme a sazonalidade da oferta e as condições climáticas anuais (Homma, 2014). Ainda assim, parte dos agroextrativistas atua de forma independente, o que pode limitar o acesso a melhores condições de comercialização, apoio técnico e direitos trabalhistas (Carvalho et al., 2013; Pacheco, 2009).

As Unidades Produtivas Modais utilizadas na modelagem espacialmente explícita foram registrados pela CONAB e pela literatura abrangem 13 localidades nos estados do Acre, Amazonas, Pará, Amapá, Mato Grosso e Rondônia, apresentando ampla variação de produtividade de 0,22 t/safra em Sena Madureira (AC) até 22,49 t/safra em Brasiléia (AC) e 400,4 t/safra em Baião (PA), este último valor excepcional, registrado em estudo de literatura. No conjunto dos sistemas avaliados, observam-se três grandes padrões produtivos: 1) Sistemas tradicionais como os de Sena Madureira (AC) e Altamira (PA), com baixa produtividade (≤1 t/safra) e altos custos de produção (R$ 6.472 a 7.676/t). 2) Sistemas intermediários como Boca do Acre (AM), Lábrea (AM), Manicoré (AM) e Laranjal do Jari (AP), com produtividades entre 3 e 10 t/safra e custos de produção mais equilibrados (R$ 1.200 a 4.600/t). Nesses locais, o transporte é fluvial e terrestre, e os custos logísticos variam de R$136 a 380/t, refletindo a combinação entre acesso a rios e estradas regionais. E 3) Sistemas altamente produtivos como Oriximiná (PA), Itaúba (MT) e Ponta do Abunã (RO), com produtividades de 11 a 14 t/safra, custos de produção de R$ 2.000 – 4.000/t.

A análise dos registros da Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura (PEVS/IBGE) mostra que a produção da castanha-do-brasil apresenta picos de safra intercalados e variabilidade regional acentuada. Os anos de alta safra se concentram entre 2014 e 2023, dependendo da região. No Acre, os maiores volumes ocorreram em Rio Branco (14.038 t em 2015) e Xapuri e Sena Madureira com valores intermediários. No Amazonas, destacam-se Lábrea (9.040 t em 2022), Tefé (2.912 t em 2023) e Manaus (6.151 t em 2016). No Pará, os municípios de Santarém (7.225 t em 2023) e Belém (1.258 t em 2015) se destacam. Em Roraima e Mato Grosso, observa-se uma tendência de expansão recente, com Rorainópolis– Caracaraí (2.230 t em 2018) e Cuiabá (469 t em 2023) apresentando picos expressivos. Os anos de baixa safra, por outro lado, ocorreram em 2013, 2015, 2017 e 2018, marcados por menores volumes de coleta em quase todas as regiões. A modelagem espacial das estimativas de renda incorpora essas diferenças, refletindo a complexidade socioeconômica e ambiental dos castanhais na Amazônia (Carvalho Ribeiro et al., 2018; Strand et al., 2018).

ALVES, R. N. Produção e mercado da castanha-do-Brasil. Belém: Embrapa Amazônia Oriental, 2009.

CARVALHO, M. G.; SILVA, J. N. M.; SOUSA, R. F. Sociobiodiversidade, extrativismo e mercado da castanha-do-brasil no Pará. Revista de Estudos Amazônicos, v. 8, n. 2, p. 45-61, 2013.

CARVALHO RIBEIRO, Sónia et al. Can multifunctional livelihoods including recreational ecosystem services (RES) and non timber forest products (NTFP) maintain biodiverse forests in the Brazilian Amazon?. Ecosystem Services, [s. l.], v. 31, p. 517–526, 2018.

GARIBALDI, A.; TURNER, N.; PRANCE, G. T. Ecological aspects and management of Bertholletia excelsa in Amazonian forests. Ecology and Society, v. 16, n. 4, p. 12-25, 2011.

HOMMA, A. K. O. Extrativismo vegetal na Amazônia: história, ecologia, economia e domesticação. Brasília: Embrapa, 2014.

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STRAND, Jon et al. Spatially explicit valuation of the Brazilian Amazon Forest’s Ecosystem Services. Nature Sustainability, [s. l.], v. 1, n. 11, p. 657–664, 2018.