Sobre a piaçava

A piaçava (Leopoldinia piassaba) é uma espécie endêmica da Amazônia. No Brasil, ocorre principalmente nos rios Aracá, Ereré, Padauirí, Preto, Yahá, Dalalaha e Marauiá, na margem esquerda do rio Negro, e nos rios Xié, Curicuriari, Marié e Téia (Guimarães Júnior, 2021). As fibras nascem da bainha foliar, formando uma espécie de “cabeleira” ao redor do estipe, característica que lhe dá nomes indígenas como maráma (Werekena) e expressões como “pelo do coração” no Nheengatu (pia = coração; saua = pelo). As fibras apresentam comprimento variável, de 30 cm até 2,5 m, podendo ser claras, avermelhadas ou quase negras, dependendo do ecossistema (Pimentel & Del Menezzi, 2020). A altura das palmeiras varia entre 3 e 4 metros de altura, rendendo em média entre 8 e 10 kg da fibra (bruta). Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), a extração de fibra ocorre ao longo de todo o ano, mas o pico da safra ocorre entre março e setembro.

A Leopoldinia piassaba é uma palmeira de grande importância socioeconômica e cultural. Este produto representa um elo entre a floresta, as comunidades tradicionais e os mercados regionais, nacionais e internacionais. Historicamente, suas fibras têm sido utilizadas por povos indígenas na confecção de cordas e amarras de embarcações, cobertura de casas, artesanato, escovas e vassouras, constituindo-se em símbolo de identidade e resistência para povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos. Além disso, a piaçava integra processos de territorialização e de resistência frente à exploração histórica, marcada por séculos de relações de patronagem e por formas de trabalho análogas à escravidão (Guimarães Júnior, 2021).

Desde a produção até sua comercialização no mercado nacional e internacional, o sistema produtivo da piaçava envolve saberes locais, esforços coletivos e relações com o meio ambiente amazônico. O primeiro elo do sistema produtivo é o piaçabeiro – extrativista que extrai a piaçava pelo menos em um período do ano, porém mantém outras atividades produtivas, como a agricultura. O sistema produtivo da piaçava é baseado no extrativismo de coleta, em que a palmeira não é destruída para sua obtenção. O piaçabeiro pode levar no mínimo 20 minutos até a área de coleta (Osoegawa & Faria, 2024). Os demais elos do sistema envolvem pelo menos quatro intermediários. Entre eles, destacam-se os regatões – comerciantes fluviais que impõem os preços aos piaçabeiros, compram sua produção e a repassam aos donos de armazéns na sede municipal. Estes, por sua vez, vendem aos comerciantes em Manaus, que posteriormente revendem para outros estados. Assim, quem está na base do sistema produtivo, os piaçabeiros, acaba assumindo os custos da coleta e recebendo a menor remuneração, o que reforça sua vulnerabilidade. Por essa razão, os intermediários, em especial os regatões, constituem o grande desafio dos sistemas produtivos da piaçava, já que controlam não apenas os preços, mas também o acesso a bens industrializados, fornecidos em troca de produtos locais oriundos da agricultura, do extrativismo e do artesanato (Aquino, 2003).

Apesar de sua importância ecológica, cultural e econômica, os sistemas produtivos da piaçava enfrentam desafios persistentes como condições precárias de trabalho, exploração por intermediários, ausência de políticas públicas consistentes de apoio e baixo reconhecimento do valor cultural do produto.

Os sistemas produtivos utilizados na modelagem espacialmente explícita foram registrados pela CONAB e pela literatura indicam produtividades médias entre 1 e 6 t/safra. Em Barcelos (AM), o sistema registrado pela CONAB apresenta produtividade média de 6 t/safra, custos de produção de R$ 2.905,64/t e custos de transporte de R$ 360,51/t, predominantemente fluviais, com longos percursos até os centros de beneficiamento. A literatura registra, também em Barcelos, produtividades menores (1 a 2 t/safra) e custos de transporte mais elevados (R$441,75 a R$660,68/t).

De acordo com os dados da PEVS/IBGE, a produção da piaçava apresenta oscilações significativas, com picos de safra entre 2016 e 2018, especialmente no município de Manaus (AM), que registrou 2.654 toneladas em 2016, e em Cruzeiro do Sul (AC), onde houve registro de pequena produção em 2013. Os anos de alta safra (2016 a 2018) foram marcados pela recuperação da produção após períodos de retração, especialmente nas regiões do Alto Rio Negro. Já os anos de baixa safra (2013 e 2018 em algumas regiões). A modelagem espacial das estimativas de renda incorpora essas diferenças, refletindo a complexidade socioeconômica e ambiental da piaçava na Amazônia (Carvalho Ribeiro et al., 2018; Strand et al., 2018).

CARVALHO RIBEIRO, Sónia et al. Can multifunctional livelihoods including recreational ecosystem services (RES) and non timber forest products (NTFP) maintain biodiverse forests in the Brazilian Amazon?. Ecosystem Services, [s. l.], v. 31, p. 517–526, 2018.

GUIMARÃES JUNIOR, J. C. O extrativismo da piaçava (Leopoldinia piassaba Wallace) no município de Barcelos – AM. 2021. Tese (Doutorado em Biotecnologia – Biodiversidade e Conservação) – Universidade do Estado do Amazonas, Manaus, 2021.

OSOEGAWA, D. K.; FARIA, I. F. Territorialidade e manejo cultural da piaçava pelo povo Werekena – Terra Indígena Alto Rio Negro/AM. Confins – Revue franco-brésilienne de géographie / Revista franco-brasilera de geografia, n. 64, 2024. DOI: https://doi.org/10.4000/12f3h .

PIMENTEL, N. M.; DEL MENEZZI, C. H. S. Rendimento do processamento dos produtos oriundos da fibra vegetal da piaçava (Attalea funifera). Nativa, Sinop, v. 8, n. 1, p. 137-144, jan./fev. 2020. DOI: https://doi.org/10.31413/nativa.v8i1.8096

STRAND, Jon et al. Spatially explicit valuation of the Brazilian Amazon Forest’s Ecosystem Services. Nature Sustainability, [s. l.], v. 1, n. 11, p. 657–664, 2018.